:: Perfume de Jasmim ::
Ontem saí munida de minha câmera a fotografar minha rua preferida em Buenos Aires.
Meu lugar conto de fadas em toda a cidade, longe dos holofotes turísticos conhecidos. Descobri depois que o lugar secreto tem nome próprio, mas nem o Google traz muita informação sobre ele e igualmente eu gostaria de mantê-lo eternamente secreto, só pra mim.
Esse lugar em Buenos Aires me transporta para outros mundos, um cenário magia onde eu optaria viver na cidade, se pudesse. Um rinconcito por onde eu faço questão de passar quando saio pra caminhar nos parques perto de casa, um compilado meio tímido, meio oculto, de cinco ou seis ruas, no más. Minhas seis ruas conto de fadas. Seis ruas que, apesar da proximidade com uma avenida movimentadíssima, conseguem manter o silêncio e a tranqüilidade que tanto aprecio quase intactos. Um oásis de silencio em meio ao transito caótico da cidade. Nesse aglomerado de minhas seis ruas preferidas, ainda se pode ouvir o canto dos passarinhos que brincam livremente nos galhos das árvores que embelezam as calçadas, ou sentir o aroma das flores de jasmim que florescem nesse prelúdio de primavera e exalam seu cheiro para anunciar que ali é, sim, um recanto digno das histórias de príncipes e princesas. Talvez seja eu uma aspirante a princesa, quem sabe?
Enquanto passeava timidamente com minha câmera turística por entre aquelas calles secretas, quase desertas, me perguntava: quem morará nessas lindas casas? Serão felizes? Terão problemas? Noção dessa beleza que os rodeia?
Fato é que não estava nada confortável e me sentia estranha e vigiada registrando em fotos a beleza daquelas construções principescas. Me sentia invadindo a privacidade e rompendo o silêncio imaculado daquele lugar, enquanto meus pés provocavam ruídos ao amassar as folhas de inverno caídas sobre a calçada.
“Sou estudante de arquitetura e me interessa fotografar essas casas”, teria o discurso na ponta da língua, em caso de me pararem para perguntar o que eu, estranha, fazia ali naquele lugar. Não me pararam.
Voltar a ser turista naquela tarde de terça feira teve gosto especial. Me dei conta de que tirar, depois de 4 meses, a câmera da bolsa para fotografar o próprio bairro me causa um certo desconforto. Sobretudo porque me leva de volta a fase inicial de descobertas, quando agora, pretensiosamente, quero viver com a naturalidade de uma local. Tirar a câmera da bolsa significa voltar a ver com olhos de turista, papel que queria deixar pra trás, definitivamente. Aqui, meu lugar no mundo, sou nativa, sou argentina, sou portenha. Pretensão, pura pretensão.
Outro dia disse a um amigo que a pior coisa de se viver em Buenos Aires é a proximidade com o Brasil e a constante lembrança de que se está “logo ali”, pelo número de brasileiros que se escuta nas ruas, nas lojas, nos estabelecimentos comerciais. Dois mundos tão distintos invadindo o espaço um do outro, alterando a autenticidade da paisagem, a plenitude da experiência. Topar com brasileiros em Buenos Aires todo o tempo não me deixa sorver o que a cidade tem de mais genuíno.
Talvez seja essa uma visão preconceituosa, talvez desejasse no fundo um exílio absoluto de hábitos e costumes, para (re) começar do zero e observar com a minha pátria com o distanciamento necessário nessa etapa de minha vida.
A verdade é que ali, naquele recanto particular de cinco ou seis ruas, eu me encontrei de novo. Descobri um universo tão minúsculo e tão especial, que queria colocá-lo em uma caixinha e guardá-lo só para mim, para sempre.
O cheiro de jasmim ainda exala das pétalas que agarrei entre os dedos.

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